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Diálogo e possibilidades


O físico David Bohm é uma importante referência no entendimento do significado do termo Diálogo. Seus estudos apontaram para a necessidade de se diferenciar o processo que ocorre quando duas ou mais pessoas estão envolvidas numa conversação onde há um fluxo de compartilhamentos de ideias ou significados, o que ele chama de diálogo, de uma outra situação, mais corriqueira, onde o que ocorre é a defesa de pontos de vista.

Bohm chama atenção para a etimologia da palavra Diálogo: dia, em grego não quer dizer dois e sim, através. E logos quer dizer sentido. Assim, o significado etimológico da palavra diálogo remete a um significado que perpassa, através de alguém ou de um grupo para outras pessoas. Num diálogo não é importante haver concordância entre os participantes, o convite é para a escuta, para o acolhimento daquele significado que está sendo compartilhado por alguém.

A compreensão que emerge num diálogo pressupõem o que o físico chamou de suspensão de julgamentos: aquele que ouve busca a compreensão do significado a partir da perspectiva do interlocutor. É um exercício que demanda um esforço de atenção e de foco no outro. Diferente do que normalmente ocorre nas interações cotidianas onde, ao escutarmos o outro, imediatamente nos conectamos com os nossos próprios pensamentos, experiências e conceitos pré estabelecidos, nos fazendo perder a conexão com o outro. Num diálogo não há embate, uma ideia não é certa ou o errada, o que acontece é o compartilhar de significados.

Neste sentido, a escuta é tão importante quanto a fala, talvez mais importante ainda. A escuta atenta e sem julgamento permite ao outro a exposição de suas ideias com profundidade e clareza, sem a preocupação de defender e justificar o seu ponto de vista. O sentimento gerado neste ambiente de acolhimento de ideias propicia a descoberta e o aprendizado.

Diálogo, como proposto por David Bohm não é o tipo de conversação que temos no dia-a-dia nem nos ambientes sociais e menos ainda nos profissionais. A abertura para a escuta com esta qualidade de acolhimento de uma ideia sem interferência de julgamentos, pressupõe relações mais igualitárias e a ausência da dicotomia certo e errado (se A está certo então B está errado). Pressupõe ainda que aceitemos que nós seres humanos, seres vivos com a capacidade da linguagem, somos únicos em nossa forma de perceber o mundo e criar significados. Um grupo de pessoas poderá ouvir a mesma palestra e ao final cada um teve um entendimento particular. Ora, se somos únicos e interpretamos de forma particular o que acontece, o que é certo e errado acaba tendo um alto grau de relatividade. O que buscamos ressaltar aqui é que diálogos, onde há trocas genuínas de significados, são mais correntes quando deixamos de nos preocupar em defender o nosso ponto de vista como o verdadeiro, o mais correto. E podemos acolher o ponto de vista do outro, mesmo que absolutamente estranho ao nosso entendimento, como uma possibilidade a mais.

Neste contexto de mudanças velozes, estamos sendo convidados a refletir sobre nossas próprias verdades. Muito daquilo que nos parecia uma boa trilha, não mais nos tem serventia. Será que estamos diante de uma oportunidade de repensarmos o jeito de nos relacionarmos e nos organizarmos socialmente? Será que estaremos cada vez mais dispostos a nos engajarmos em diálogos genuínos e, partir disto, melhor lidarmos com os desafios do presente? Será que finalmente estaremos mais próximos de uma convivência onde a diversidade é reconhecida e a riqueza das diferenças será mais apreciada do que a insolidez de uma pretensa verdade?


Márcia Bellotti, é psicóloga, mediadora de conflitos e especialista em gestão responsável. Experiência nas áreas de Recursos Humanos em empresas multinacionais. Atualmente, consultora na área de gestão responsável e sócia fundadora da Takao Diálogos para sustentabilidade. Voluntária do Capacita-me nos grupos de trabalho em educação e mentoria.

Referências .

BOHM, David. On dialogue. Londres: Routledge, 1998.

BUBER, Martin. Do diálogo e do dialógico. São Paulo: perspectiva, 1982.

ISAACS, William. Dialogue and the art of thinking together. Nova York: Doubleday Currency, 1999.

MARIOTTI, Humberto. Diálogo: um Método de Reflexão Conjunta e Observação Compartilhada da Experiência http://escoladedialogo.com.br/escoladedialogo/index.php/biblioteca/artigos/dialogo-reflexao-conjunta/


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Revisão de texto da professora Tatiane Cristina Silva no instagram @tati_boni.


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